Mãe denuncia negligência em atendimento a jovem com síndrome de Down no DF: “Morreu nos meus pés”

Warlley Eduardo Pires, 30 anos, morreu em uma unidade da rede pública de saúde após longas horas de espera por atendimento. A família aponta negligência médica e preconceito, devido à condição de saúde do homem: Warlley tinha Síndrome de Down.

O calvário da família Pires começou na quinta-feira da semana passada (9/3). Em vídeos, é possível ver o rapaz se debatendo no chão da unidade de pronto atendimento (UPA II ), no Setor O. Os profissionais de saúde viam a cena e passavam pelo paciente, sem demonstrar qualquer preocupação. Maria de Lourdes Pires, 50, mãe de Warlley, informou que, minutos após o registro das imagens, ele começou a perder os sinais vitais. “Morreu nos meus pés”, desabafou a diarista.

No atestado de óbito, uma das causas da morte deixou a família revoltada. O documento listava insuficiência renal, pneumonia, diabetes e síndrome de Down como motivo da fatalidade.

O rapaz registrava febre de 39ºC e diarreia havia quatro dias, com vômitos desencadeados por tosses intensas. A família buscou atendimento em uma unidade básica de saúde (UBS III) de Taguatinga, onde foi orientada a procurar uma UPA de Vicente Pires, onde foi confirmado o quadro de pneumonia e glicemia alta. Medicado, o rapaz recebeu alta e foi para casa.

Sem apresentar melhora nos dias seguintes, de acordo com o prontuário médico, Warlley deu entrada com pneumonia às 8h50 na UPA II, de Ceilândia, sendo levado pelo Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), em 9 de março. Nesse primeiro momento, é confirmado pelos médicos do Samu o quadro de hiperglicemia e o estado febril do paciente.

Às 9h30, é solicitado antibiótico. Aproximadamente 15 minutos depois, os profissionais registram que Warlley apresentava “agitação psicomotora, engatinhando no chão e deitado no corredor”. A partir desse momento, a família informa que os profissionais da saúde não deram atenção ao jovem, que foi apresentando uma sequência de piora.

“Meu filho não tinha aquele comportamento, e eu falava ‘moço, meu filho não está bem”, lembrou a mãe. Apesar das súplicas, Warlley recebeu alta às 14h20, conforme consta no prontuário. Com a liberação médica, ela chega a sair do hospital, mas na porta se arrependeu e voltou com o filho para dentro da UPA.

Nesse momento, a mãe disse que foram levados para a “sala verde”, onde aguardaram por um leito. Warlley, então, deitou no chão e se debateu. A mãe clamou por ajuda, mas, segundo ela, foi ignorada. “Eu via que ele estava morrendo”. Maria de Lourdes contou que só quando o filho perdeu a consciência uma enfermeira identificou o agravamento do caso.

O prontuário médico relata que às 15h53, outro médico foi chamado à sala de emergência para analisar o estado do paciente. Às 16h20, o documento mostra que ele teve 30 minutos de parada cardiorrespiratória e se encontrava em estado grave geral. Duas horas depois, às 18h57, Warlley apresentou uma segunda parada cardiorrespiratória, dessa vez por 10 minutos.

O paciente foi classificado como estado gravíssimo, com necessidade de ventilação respiratória. A partir das 19h10, ele foi encaminhado para o Hospital Regional de Samambaia (HRSam). Às 20h27, o prontuário registra que o paciente aguardava por uma vaga em UTI, com prioridade.

Ao Metrópoles mãe contou que, quando o médico do HRSam recebeu Warlley para atendimento, já informou que o estado de saúde do paciente era grave. “Ele me disse que meu filho não iria resistir e que já veio com um quadro de morte”. Às 5h40 do dia 10/3, o óbito foi declarado.

A família registrou um boletim de ocorrência na Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) nessa segunda-feira (13/3), na 24ª Delegacia de Polícia (Ceilândia) que investiga a possível omissão médica nos socorros. Um amigo da família disse que “ele se debatia porque estava morrendo”. No vídeo acima , é possível ver os profissionais da saúde passando por Warlley e observando a cena enquanto a mãe pede para que o rapaz seja amparado.

Fonte: Metrópoles